Identidade religiosa no culto de Orunmilá Ifá e Orixás
A palavra identidade refere-se exatamente ao que se identifica; ou seja, identidade é aquilo que torna um ser ou um objeto aquilo que ele é. Identidade também se remete à identificação; quando dizemos que algo está idêntico a outro, há pontos de tanta semelhança que tornam o objeto igual àquilo em que se espelha. A identidade religiosa quer falar também sobre isso: o sujeito que se sente e se comporta como religioso, e tem essa marca no seu jeito de ser, é um sujeito que chamamos de religioso; ele possui uma identidade religiosa, é um ponto marcador.
O culto de Orunmilá Ifá tem como ponto central os odu Ifá, que nada mais são do que arquétipos e sentenças por meio dos quais se transmitem lições de vida às pessoas, a partir de um exemplo concreto, a fim de orientar o consulente. São dezesseis versos maiores e duzentos e cinquenta e seis versos menores que compõem o corpo literário dessa cultura, que até hoje é transmitida oralmente. Em todos os versos de Ifá, há uma enorme preocupação com a observação do comportamento do sujeito devoto dessa fé. Ifá chama de ìwà pẹ̀lé, que também é uma divindade, a divindade do bom comportamento. Ifá ensina que, quando temos bom caráter, tornamo-nos mais merecedores das bênçãos do céu e mantemos nossa roupa limpa. No odu Ejiogbe, Ifá diz que a roupa branca não se mistura com o azeite de dendê, numa orientação expressa de que os devotos de Ifá não se misturem com coisas que possam manchar sua honra, seu espírito e seu modo de se apresentar sobre a Terra.
No culto dos orixás, tanto na forma afro-brasileira quanto na forma tradicional — como se chamam os cultos ainda presentes na Mãe África —, os versos dos orixás, que contam suas histórias, mostram que eles erraram em alguns momentos enquanto desenvolviam sua missão. Porém, ao consultar Ifá, puderam fazer seu sacrifício e retornar à sua rota original. No odu Ogundaowonrin, Ogum foi caçar, mas não ouviu Ifá e se perdeu na floresta. Foi sua esposa quem procurou Ifá, fez o sacrifício e conseguiu achar Ogum na floresta, trazendo-o de volta tranquilo. Nesse verso, podemos observar a importância de não ser arrogante, de agradecer às nossas boas companhias e, sobretudo, de não ser violento.
Os cultos de matriz africana não são cultos moralistas no sentido ocidental da palavra; muito pelo contrário, cada sujeito é singular dentro de sua existência e, por isso mesmo, apenas o oráculo pode orientar aquela pessoa de forma única. Diferentemente de outras culturas, na nossa, os orixás nos falam diretamente. Ouvir cada palavra e orientação é ter a graça de ser abençoado com uma mensagem que colaborará em nossa caminhada de reconciliação de nosso ori com a nossa história e com a história de nossos ancestrais.
Dito tudo isso, o meu questionamento é: será que nos identificamos com o que diz Ifá e com o que dizem os orixás para as nossas vidas? Essa cultura é algo de que eu tenho orgulho? É algo que eu vivo no meu dia a dia?
Neste culto, identificar-se com as palavras de Ifá e sentir os orixás em nossa vida, em nossa pele e em nosso cotidiano é de fundamental importância para podermos viver bem e dar testemunho positivo da nossa crença.
Nesse sentido, é preciso diferenciar o cliente, que vem consultar Ifá por algo sazonal, da pessoa que tem dom, que foi escolhida por Olorun para ser transmissora desse axé para as pessoas na Terra.
A cultura de Ifá e dos orixás exige de nós uma vida em equilíbrio, e o chamado consiste exatamente em lutar contra as nossas inclinações que naturalmente nos fazem mal. Ifá nos chama a um despertar para entendermos que o que vivemos hoje nossos antepassados já viveram, e agora precisamos renovar a história de forma positiva.
O sujeito que ouve Ifá e se deixa tocar por essa filosofia identifica-se com ela e enxerga nisso uma forma de ser e viver sem sofrimento. Nessa cultura, Ifá não nos orienta para um caminho de sofrimento, mas para um caminho de alegria, festividade e reconciliação.
Então, caro leitor, minha sugestão para você que quer conhecer ou viver essa cultura é deixar-se conduzir pelas orientações, sentir a força dos orixás em sua pele e modificar a forma de estar no mundo. Integre-se à natureza, pois somos com a Terra, e nunca estaremos sobre ela.

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